Meu avô completaria mais uma primavera nesta semana. Lembro-me dele com frequência, em abril, mês do seu nascimento e morte, as lembranças estão ainda mais constantes. Eu não sei ao certo quantos anos ele faria, pois Antônio, ou melhor, vó Toninho, não foi meu avó desde que eu nasci. Na verdade, nenhum dos netos e bisnetos tinham laços sanguíneos com ele. É que Antônio se casou com Maria, que já era mãe, mas eles nunca tiveram filhos juntos. Mas isso pouco importa. O legal é que ele adotou todos os rebentos da Zélia como netos. Os filhos dos filhos dela também o tiveram como bisavô.
Eu me tornei neta de Antônio de uma forma um pouco diferente, porém pela mesma razão: pelo amor, pelo coração. Ele e a vó Maria eram pessoas apaixonantes, tratei logo de adotá-los. Pedia a benção, almoçava aos domingos com eles, ouvia conselhos e chorava minhas mágoas. Mesmo após mudar de Ibitira eu aguardava ansiosamente o momento do reencontro com eles.Os dois viviam felizes, no entanto, a vó se foi inesperadamente cedo e primeiro do que Toninho; apesar de ela ser mais forte, sadia. A casa ficou um pouco mais triste e o vô insistia em permanecer lá, sozinho, até que um infarto o deixou com sequelas e impossibilitado de se cuidar.
O tempo passou e há quase um ano Deus o levou, certamente para perto daquela que ele mais amava, minha eterna avó Maria. De uma certa forma, foi melhor para o vô, ela estava sofrendo muito, não andava mais, as palavras saíam com dificuldade. Aí eu fico na saudade, com uma vontade incurável de poder tomar um café com bons dedos de prosa e abraços que só ele tinha.
